Só o SANTOS parou duas guerras!

“As pessoas só falam da Guerra de Biafra, na Nigéria, mas o Santos também interrompeu os conflitos entre República do Congo e República Democrática do Congo”,

“People only talk about the Biafra War in Nigeria, but  Santos also interrupted the conflicts between the Republic of Congo and the Democratic Republic of Congo”.

Prof. Guilherme Nascimento.

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Texto de Guilherme Nascimento que foi lido na integra no relançamento do livro Time dos Sonhos de Odir Cunha, no Museu Pelé,  dia 19 de dezembro de 2015!

Text by Guilherme Nascimento, which was read in full in the reissue of the book :”Time dos sonhos” (dream team) by Odir Cunha, at the Pelé Museum on December 19, 2015!

Muito mais que futebol! Só o Santos parou as guerras…

Much more than football! Only Santos stopped the wars …

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Janeiro de 1969.  – January 1969.
Parecia que o Brasil e o Mundo estavam de cabeça para baixo.
Aqui, o AI-5 ceifava cabeças, Vandré embalava multidões e Roberto Carlos vivia em ritmo de aventura. Lá fora, os jovens estudantes continuavam tentando  mudar o mundo, onde quer que estivessem. Fosse em Washington ou Saigon, Paris ou Praga, Caracas ou Roma, Londres ou San Francisco. Algumas vezes na vanguarda dos movimentos sociais, outras vezes apenas resistindo à repressão ou a violência do Estado.

It seemed that Brazil and the World were upside down.
Here, the AI-5 reaped heads, Vandré packed crowds and Roberto Carlos lived in an adventurous rhythm. Outside, the young students continued to try to change the world, wherever they were. Whether in Washington or Saigon, Paris or Prague, Caracas or Rome, London or San Francisco. Sometimes at the forefront of social movements, sometimes only resisting repression or state violence.

No futebol, um time sul-americano continuava reinando em seu País e preparava-se para ser o melhor do Mundo novamente. Depois de um ano perfeito (1968), quando conquistou todas as competições que participou, o Santos FC preparava-se para um giro pelos campos africanos.

Não seria a primeira vez, visto que o time de Vila Belmiro já visitara o continente negro em 1960, 1966 e 1967.

Com um roteiro prevendo jogos no Congo, Nigéria, Argélia e Moçambique a viagem se estenderia por 25 dias, iniciando em 17 de janeiro e terminando em 9 de fevereiro.

In soccer, a South American team continued to reign in their Country and was preparing to be the best in the World again. After a perfect year (1968), when he won all the competitions he attended, Santos FC was preparing for a tour of the African fields.

It would not be the first time, since Vila Belmiro’s team had already visited the black continent in 1960, 1966 and 1967.

With a road map predicting games in the Congo, Nigeria, Algeria and Mozambique the trip would extend for 25 days, starting on January 17 and ending on February 9.

Com uma delegação de 18 atletas (Gylmar, Laércio, Turcão, Ramos Delgado, Oberdã, Emerson Marçal, Rildo Costa Menezes, Joel Camargo, Negreiros, Lima, Jonas Eduardo Américo, Amauri, Toninho Guerreiro, Douglas Franklin, Pelé, Abel e Manoel Maria Dos Santos) o SFC parte para fazer história na África.

A primeira parada foi na cidade portuária de Point Noire, na República do Congo. O adversário seria uma seleção local. O estádio lotado viu todos os 18 craques santistas em campo desfilarem a categoria que possuíam e marcarem 3 gols.

Apesar da derrota por 3×0, os torcedores locais saíram satisfeitos, pois diziam ao final da partida: “Perder para o Santos não é perder!”

With a delegation of 18 athletes (Gylmar, Laércio, Turcão, Ramos Delgado, Oberdã, Emerson Marçal, Rildo Costa Menezes, Joel Camargo, Negreiros, Lima, Jonas Eduardo Américo, Amauri, Toninho Guerreiro, Douglas Franklin, Pelé, Abel and Manoel Maria Dos Santos) the SFC starts to make history in Africa.

The first stop was in the port city of Point Noire, Republic of Congo. The opponent would be a local selection. The crowded stadium saw all 18 Saints in the field parading the category they had and scoring 3 goals.

Despite the 3-0 defeat, the local fans left satisfied, as they said at the end of the game: “To lose to Santos is not to lose!”

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Dois dias depois uma esticada até a capital, Brazaville, para enfrentar a seleção nacional do Congo, no Estádio da Revolução. Oitenta mil pessoas lotavam o estádio.

Nas tribunas a presença do Presidente da República do Congo, Ngouabi. O árbitro congolês (Nkoukou) permitia a violência dos jogadores locais contra os santistas e ao final do 1º tempo, revoltado, Pelé aproxima-se de Nkoukou e exclama: “Le macth est fini!”. O Presidente do Congo, vendo os fatos, manda um bilhete para o árbitro:

“O Santos está aqui para dar um espetáculo e eu quero assistir esse espetáculo. Você tem que apitar direito o segundo tempo. Se isso não acontecer, você será preso”.

Recado dado, recado recebido.

Logo no início da etapa final, o árbitro marca um pênalti, que Toninho converte. Em seguida, Pelé marca de falta e acaba a violência em campo. No final, vitória por 3×2.

Two days later one stretched to the capital, Brazaville, to face the national team of the Congo, in the Stage of the Revolution. Eighty thousand people crowded the stadium.

In the stands the presence of the President of the Republic of Congo, Ngouabi. The Congolese referee (Nkoukou) allowed the violence of the local players against the saints and at the end of the first time, in revolt, Pelé approaches Nkoukou and exclaims: “Le macth est fini!”. The President of Congo, seeing the facts, sends a note to the referee:

“Santos is here to give a show and I want to watch this spectacle. You have to whistle right the second time. If that does not happen, you will be arrested. “

Message given, message received.

At the beginning of the final stage, the referee marks a penalty, which Toninho converts. Then, Pelé marks the foul and ends the violence on the field. In the end, win by 3×2.

Após atuar em Brazaville, uma incrível travessia de barco pra Kinshasa na República Democrática do Congo.

Brazaville e Kinshasa são separadas pelo Rio Congo. Uma capital de frente para outra…

After performing in Brazaville, an incredible boat trip to Kinshasa in the Democratic Republic of Congo.

Brazaville and Kinshasa are separated by the Congo River. One capital facing another …

Em 1969, os dois países estavam rompidos diplomaticamente. A República do Congo (RC) tinha um Governo de orientações marxistas, enquanto que a República Democrática do Congo (RDC) era alinhado com os governos pró-EUA, algo no estilo Coreia do Norte e Coreia do Sul. Desta forma não havia ligação fluvial entre as capitais, sendo proibido que qualquer pessoa atravessasse o Rio Congo em qualquer direção.

Mas, como Pelé e seus súditos atravessariam a fronteira?

In 1969, the two countries were diplomatically broken. The Republic of Congo (RC) had a Government of Marxist orientations, while the Democratic Republic of Congo (DRC) was aligned with the pro-US governments, something in the style of North Korea and South Korea. In this way there was no fluvial connection between capitals, and it is forbidden for anyone to cross the Congo River in any direction.

But how could Pele and his subjects cross the border?

Aqui surgia a primeira grande aventura… Num trabalho intenso de bastidores políticos, surge uma trégua na tensão diplomática. O exército da RDC manda uma barca para buscar os craques santistas, e num gesto de boa vontade o Governo da RC permite que a mesma atracasse em seu território. Em outro momento tal situação significaria uma declaração de guerra, porém era o Santos, era Pelé, eram os deuses negros do futebol que estavam no cais de Brazaville. Desta forma, o futebol provoca seu primeiro milagre na África: Tiros ou bombas não foram ouvidos e nem foram lançadas… A paz estava sendo construída. Era a missão de paz e alegria que estava passando em solo congolês.

E o Santos superou uma guerra…

Here was the first great adventure … In an intense work of political backstage, a truce emerges in the diplomatic tension. The DRC army sends a boat to look for the saints, and in a gesture of goodwill, the RC Government allows it to dock in its territory. At another time such a situation would mean a declaration of war, but it was Santos, it was Pele, they were the black soccer gods who were on the Brazaville quay. In this way, football provokes its first miracle in Africa: Shots or bombs were not heard or launched … Peace was being built. It was the mission of peace and joy that was happening on Congolese soil.

And SANTOS overcame a war …

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Em Kinshasa, enfrentando uma típica tempestade tropical que desabou sobre a RDC, apenas treze mil pessoas viram mais uma vitória do alvinegro.

Mais dois dias e mais uma partida, agora com o tempo mais firme, quarenta mil pessoas lotaram o estádio Tata Raphael e viram a vitória dos locais por 3×2!

Euforia na África!

Uma seleção africana derrotava os deuses do futebol!

As comemorações foram dignas de um título mundial. E, cotaram aos correspondentes internacionais, os torcedores africanos saíram em carnaval pelas ruas.

Por decreto do então presidente da República do Congo, Joseph Desirée Mobutu, esse dia 23 de janeiro, passou a ser o Dia Nacional dos Esportes no Congo!

In Kinshasa, facing a typical tropical storm that collapsed on the DRC, only thirteen thousand people saw another victory of the alvinegro.

Two more days and one more match, now with the strongest time, forty thousand people crowded the stadium Tata Raphael and saw the win of the venues by 3×2!

Euphoria in Africa!

An African team defeated the soccer gods!

The celebrations were worthy of a world title. And, quoted international correspondents, African fans went out in carnival in the streets.

By decree of the then President of the Republic of the Congo, Joseph Desirée Mobutu, on January 23, became National Sports Day in Congo!

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Do Congo, o alvinegro seguiu para a Nigéria, seriam os “Águias Verdes”, a seleção nigeriana, o próximo adversário. Mesmo sofrendo com a violência, Pelé realizou uma grande exibição e marcou dois gols no empate por 2×2.

From Congo, SANTOS continued to Nigeria, they would be the “Green Eagles”, the Nigerian national team, the next opponent. Despite suffering from the violence, Pelé made a great showing and scored two goals in a 2-2 draw.

Da Nigéria, parte para Moçambique, na época colônia portuguesa. O adversário seria o time europeu FK Áustria Viena, que foi derrotado por 2×0.

Mas o Governo da Nigéria queria mais uma apresentação em seu território, na cidade de Benin. A Nigéria atravessava uma séria crise política, com a intensificação da guerra civil na região de Biafra, em luta por sua independência.

Assim como todas, era uma enorme tragédia tal guerra… As potencias ocidentais alimentavam os dois lados com armamentos.

From Nigeria, it leaves for Mozambique, at that time Portuguese colony. The opponent would be the European team FK Austria Vienna, who was defeated by 2×0.

But the Government of Nigeria wanted another presentation on its territory, in the city of Benin. Nigeria was experiencing a serious political crisis with the intensification of the civil war in the Biafra region in the struggle for independence.

Like all of them, such a war was an enormous tragedy … Western powers fed both sides with armaments.

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Benin era uma das cidades mais importantes da Nigéria. De grande importância espiritual para os locais, foi sede do antigo reino de Benin, destruído pelos britânicos em 1897. Na época dos britânicos o Rei acabou exilado em Calabar, no extremo leste da Nigéria.

Quando o Peixe chegou em Benin, a delegação santista foi apresentada ao descendente do antigo Rei de Benin, Akenzua II, que tinha 26 esposas, 84 filhos e 216 filhas. O ex-jogador Lima, em depoimento, afirmava que os atletas santistas deram-lhe apelido de “Rei do Pissirico”.

Benin também era uma cidade importante do ponto de vista estratégico e
econômico, e mesmo não fazendo parte da região de Biafra, contava com forte ação guerrilheira. A Lei Marcial vigorava na região, e a violência fazia parte do cotidiano da população.

Porém ali estavam os maiores futebolistas do planeta, visitando aquela região esquecida do Mundo.

Benin was one of the most important cities in Nigeria. Of great spiritual importance to the locals, it was home to the ancient kingdom of Benin, destroyed by the British in 1897. In British times the King ended up in exile in Calabar, in the far east of Nigeria.

When the fish arrived in Benin, the Santos delegation was presented to the descendant of the former King of Benin, Akenzua II, who had 26 wives, 84 sons and 216 daughters. The former player Lima, in testimony, affirmed that the santistas athletes gave him nickname of “King of the Pissirico”.

Benin was also an important city from the strategic point of view and
economic, and even not being part of the region of Biafra, counted on strong guerrilla action. Martial Law prevailed in the region, and violence was part of the daily lives of the population.

But here were the greatest footballers on the planet, visiting that forgotten region of the World.

A tensão era tão grande que poderia ser sentida nas pontas dos dedos…

The tension was so great that it could be felt at the tips of the fingers …

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Haveria partida de futebol?

Pelé poderia ser visto em campo?

Haveria paz?

Is there a football match?

Could Pelé be seen on the pitch?

Would there be peace?

Mas, aquela excursão era para quebrar todas as expectativas…

Naquele instante, todos queriam ver Pelé…

As diferenças étnicas, política, ideológicas seriam superadas.

Não haveria violência, não haveriam mortes.

But, that tour was to break all expectations …

At that moment, everyone wanted to see Pele …

Ethnic, political, ideological differences would be overcome.

There would be no violence, there would be no deaths.

Crianças não ficariam órfãs naqueles dias. Esposas e mães não enlutariam seus corações, pois algo mágico estava acontecendo: era o Santos FC em Benin.

O transporte foi reestabelecido e decretado feriado. O estádio lotou, e vinte e cinco mil pessoas testemunharam o momento onde a paz foi alcançada.

Uma paz efêmera, mas paz!

Children would not be orphaned in those days. Wives and mothers would not mourn their hearts, for something magical was happening: it was Santos FC in Benin.

The transport was reestablished and decreed holiday. The stadium crowded, and twenty-five thousand people witnessed the moment where peace was achieved.

An ephemeral peace, but peace!

O resultado no gramado ao final dos 90 minutos era o menos importante… O grande fato aconteceu antes da partida e fora do campo.

Uma guerra suspensa!

Mais uma… Em apenas quinze dias.

The result on the pitch at the end of the 90 minutes was the least important … The great fact happened before the match and off the field.

A suspended war!

One more … In just 15 days.

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Em seguida, uma exibição em Gana. Novamente a presença de altas autoridades, desta vez era o Tenente-General Ankrah, chefe do Exército de Libertação Nacional, que governava Gana. Pelé foi aplaudido do início ao fim da partida. E o árbitro ganês, George Lamptey, anulou um gol do Santos FC.

Finalmente a despedida: Foi no Norte da África, em Oran, Argélia.

Then a display in Ghana. Again the presence of high officials, this time was Lieutenant General Ankrah, head of the National Liberation Army, who ruled Ghana. Pele was applauded from start to finish. And Ghanaian referee George Lamptey overturned a Santos FC goal.

Finally the farewell: It was in North Africa, in Oran, Algeria.

Cinquenta mil pessoas abarrotavam o estádio. O Público ocupava até mesmo as laterais do gramado. Algo impensável nos dias de hoje, porém normal para os padrões de 1969. Pelé tem que sair correndo do gramado ao final da partida, pois os torcedores enlouquecidos invadiram o campo querendo um abraço, um aceno, ou mesmo uma peça do uniforme do Rei do Futebol.

E a excursão se encerrava. Foram 9 partidas, com 5 vitórias, 3 empates e 1 derrota.

Fifty thousand people crowded the stadium. Público even occupied the sides of the lawn. Something unthinkable these days, but normal by the standards of 1969. Pele has to run off the pitch at the end of the match, as crazed fans have invaded the field wanting a hug, a nod, or even a piece of the King’s Soccer.

And the tour ended. There were 9 matches, with 5 wins, 3 draws and 1 loss.

Marcou 19 gols e sofreu 11. Pelé foi o principal artilheiro com 8 gols, seguido por Toninho 5; Manoel Maria e Douglas Franklin com 2 e Lima e Jonas Eduardo Américo marcaram um gol cada.

Além das inúmeras homenagens, desfiles, jantares, recepções ao longo dos 25 dias, ainda foi conquistada a Taça “Banco Standard TOTTA”, na partida contra o Áustria Viena.

E assim se encerrava a aventura africana.

O futebol superava a morte e a barbárie.

He scored 19 goals and suffered 11. Pele was the top scorer with 8 goals, followed by Toninho 5; Manoel Maria and Douglas Franklin with 2 and Lima and Jonas Eduardo Américo scored one goal each.

In addition to the numerous honors, parades, dinners, receptions over the 25 days, the “Standard Bank TOTTA” Cup was still won in the match against Austria Vienna.

And so ended the African adventure.

Football surpassed death and barbarism.

 

Segue agora um vídeo com depoimentos de quem estava lá: Lima, Edu, Manoel Maria e Abel. Os verdadeiros heróis daquela partida. Vale a pena assistir:

a video with testimonials of who was there: Lima, Edu, Manoel Maria and Abel. The true heroes of that game. It’s worth watching:

Mais dessa história incrível no Estadão em 1969:

O Estado de São  Paulo, quinta-feira, 16 de janeiro de 1969, página 23:

Point-Noir vê o Santos hoje

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O Santos faz hoje à tarde, no Congo, a primeira partida de sua excursão à África, jogando contra uma seleção da cidade de Ponte-Noir (N. E.: Pointe-Noire – “Ponta Negra” em francês – é o principal centro comercial da atual República do Congo, no litoral atlântico). A delegação do Santos chegou anteontem a Brazzaville e ontem um avião especial levou o time para Ponte-Noir. Em Brazzaville, o técnico Antoninho anunciou que o Santos, em sua primeira partida, vai jogar com Gilmar, Haroldo, Ramos Delgado, Marçal e Rildo; Joel e Lima; Edu, Toninho, Pelé e Abel.

No dia em que a delegação chegou a Brazzaville, o técnico Antoninho dirigiu um leve individual à tarde, no Estádio da Revolução. No próximo sábado, o Santos volta a Brazzaville par jogar contra a seleção do Congo. Depois, o time brasileiro tem jogos marcados em Congo-Kinshasa, Nigéria, Moçambique e Argélia.

AFP e Reuters

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O Estado de São  Paulo, sexta-feira, 17 de janeiro de 1969, pág. 17:

Santos estreia hoje na África

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Em jogo transferido pra hoje, devido às fortes chuvas que caíram ontem, o Santos faz a sua primeira apresentação na excursão pela África, enfrentando o Pointe Noire em Brazaville.

As autoridades desta cidade resolveram decretar feriado para que os trabalhadores possam ver Pelé em ação. O Santos começará assim: Gilmar; Haroldo, Ramos Delgado, Marçal e Rildo; Joel e Lima; Manoel Maria, Toninho, Pelé e Edu.

Em entrevista concedida ontem a uma emissora de Brazaville, Pelé afirmou que “não podia dizer quem venceria o jogo, porque na última excursão do Santos pela África, as equipes do Congo é que haviam dado mais trabalho”.

Alguns comentaristas locais não parecem confiar muito em uma boa atuação de Pelé no jogo de hoje. “A primeira visita de Pelé – disse um deles – à África foi um fracasso. Agora ele deve ter perdido ainda mais de seu vigor”.

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O Estado de São  Paulo, terça-feira, 21 de janeiro de 1969, página 26:

Santos volta a jogar na África

Depois de derrotar o Brazaville por 3 a 2, anteontem, o Santos voltará a jogar hoje à noite, enfrentando a seleção B de Kinshasa no Estádio Tata Raphael, em Kinshasa. Na quinta-feira, o Santos jogará contra a seleção A de Kinshasa, conhecida como “Os Leopardos”, campeã africana do ano passado.

O time do Santos para o jogo de hoje será o mesmo que derrotou a seleção de Brazaville no domingo: Gilmar, Haroldo, Ramos Delgado, Marçal e Rildo; Joel e Lima; Manoel Maria, Toninho, Pelé e Edu. Em Brazaville, ainda estão falando da “extraordinária categoria e a resistência física dos jogadores do Santos demonstradas com a vitória sobre nossa seleção por 3 a 2”.

O Santos repetiu a vitória de 1967, quando fez os mesmos 3 a 2 no Estádio da Revolução sobre a seleção de Brazaville. Os jornais de lá comentam que a presença do Rei Pelé e de seus companheiros foi, até hoje, o único fator capaz de causar a lotação completa do estádio”.

Ao contrário do que aconteceu na primeira partida do Santos na África – em Ponte Noire – anteontem em Brazaville o time brasileiro precisou esforçar-se mais para chegar à vitória, porque terminou o primeiro tempo perdendo de 2 a 0. Os congoleses entraram para tentar definir a partida logo nos primeiros minutos. Os 95 mil torcedores vibraram logo aos 10 minutos de jogo, quando Socier marcou o primeiro gol para Brazaville; ele deu uma arrancada desde a ponta-esquerda e foi passando pelos zagueiros do Santos, na mais espetacular jogada de toda a partida. Rikouri, também em jogada individual, fez 2 a 0 para Brazaville aos 35 minutos.

No segundo tempo, o cansaço dos jogadores congoleses e um erro do juiz, marcando pênalti em Pelé, mudaram completamente o jogo. Logo aos 7 minutos do segundo tempo, Pelé recebeu de Lima na meia-lua e, de virada, mandou a bola no canto esquerdo.

Aos 17 minutos, Pelé foi derrubado na área e o juiz Nkounkou marcou o pênalti, numa jogada bastante duvidosa e que provocou muita reclamação por parte dos jogadores de Brazaville. Pelé cobrou o pênalti e fez o empate de 2 a 0.

O terceiro gol saiu aos 23 minutos, numa boa jogada de Pelé, que enganou os dois zagueiros de área e Brazaville com um drible de corpo e ficou sozinho no centro da área para mandar a bola no ângulo, fazendo 3 a 2.

Os congoleses, que fizeram um bom primeiro tempo, cederam completamente no segundo. Além da falta de preparo físico, ainda encontraram dificuldades com o gramado, bastante pesado depois das chuvas que caíram durante todo o domingo passado em Brazaville.

Já com a vitória de 3 a 2, o Santos limitou-se a passear em campo, dando uma demonstração de habilidade com a bola. Quanto à seleção de Brazaville, viu-se claramente que ela se entregou em vez de procurar a reação. Se o Santos tivesse forçado mais o jogo no segundo tempo, a sua vitória poderia ter sido por um resultado bem maior. O chefe de Estado de Brazaville, comandante Marien Ngouabi, também esteve no Estádio da Revolução e depois da partida entrou no gramado para cumprimentar Pelé.

O Santos viajou ontem para Kinshasa, onde joga hoje contra o time B de “Os Leopardos”. A partida mais difícil do Santos nesta sua excursão à África será na próxima quinta-feira, contra a equipe principal dos Leopardos, campeã africana do ano passado.

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Rio Congo se abre para o Santos

O Santos chegou ontem a Kinshasa, depois de atravessar o Rio Congo graças a um serviço especial de transporte que as autoridades da cidade providenciaram. Quando a delegação do Santos chegou ao rio, não havia barcos para fazer a travessia, pois as relações entre Brazaville e Kinshasa foram rompidas em outubro do ano passado, provocando a suspensão do serviço de transporte de uma margem para outra.

Por isso, as autoridades de Kinshasa tiveram que mandar um barco especial para apanhar o Santos do outro lado do rio. O Santos fará dois jogos nesta cidade, contra as duas seleções do Kinshasa, também conhecida como “Os Leopardos”: o time tem esse nome porque leopardo é o símbolo do Congo.

Além desse, houve outro pequeno incidente na chegada da delegação do Santos a Kinshasa: todos os hotéis estavam completamente reservados para os delegados que participarão da Conferência da Organização da Comunidade Africana e Malga, que começa hoje.

O Ministério do Interior tinha reservado um quarto especial para Pelé no melhor hotel da cidade, mas tinha programado hospedar o resto da delegação do Santos em outros hotéis. Mas Pelé não concordou com a ideia e toda a delegação acabou ficando num mesmo hotel.

Os jogadores passearam ontem à tarde pela cidade e hoje cedo haverá um treino leve no estádio Tata Raphael, onde serão realizados os jogos de hoje e de quinta-feira.

Em Kinshasa, Pelé declarou que pretende jogar ainda por mais três ou quatro anos:

– Espero jogar na equipe nacional brasileira durante a Copa do Mundo de 1970, no México, e depois continuar jogando por mais uns dois anos.

Pelé e o Santos provocaram um grande interesse no Congo Kinshasa, onde o futebol é, de longe, o esporte mais popular. Os jornais dedicaram páginas inteiras aos próximos jogos do time brasileiro. A maior parte dos críticos fala “da esperança de que Pelé desta vez mostre todo o seu talento, porque ele não estava em sua melhor forma quando visitou a África em 1967”.

UPI, AP, FP, Reuters

O Estado de São  Paulo, quinta-feira, 23 de janeiro de 1969, pág. 26:

Santos tem jogo “difícil”

A equipe do Santos Futebol Clube, que ontem derrotou em Kinshasa o segundo quadro do Congo, por 2 a 0, terá pela frente um jogo mais difícil amanhã, contra a seleção nacional congolesa, segundo os comentaristas locais.

A agência noticiosa congolesa disse que a equipe local não tinha coordenação, baseando seus ataques em jogadas individuais.

Pelé aplaudido – O jornal Le Progrés aplaudiu a mestria de Pelé, embora o jogador não tivesse marcado tentos na partida. Outro diário de Kinshasa, Le Courrier d’Afrique, em artigo com o título “Os brasileiros ganharam demasiadamente fácil”, disse que o Santos às vezes dava a impressão de jogar contra um adversário muito fraco.

L’Etoile diz que nunca viu um futebol verdadeiramente magistral, até apreciar os brasileiros em campo. Acrescentou que o Santos poderia ter mostrado todo o seu jogo na partida de ontem.

Da “Reuters”

Também a Folha de São Paulo destacou a excursão do SFC a Africa:

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E mais: O dia que Pelé parou uma guerra no Líbano!

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Agradecimentos:

Prof. Guilherme Nascimento.

Wesley Miranda

Odir Cunha

Assophis – Associação dos Pesquisadores e historiadores do SANTOS FC.

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2 Replies to “SANTOS FC stopped 2 wars!”

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